Conto – A Rosa da Metrópole

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A ROSA DA METRÓPOLE

(Fábio Marmirolli)

Era uma flor rodeada de concreto. Uma rosa que brotou do asfalto, daquelas que nem Drummond teria previsto. Era leve a seu próprio modo de quem não se deixa levar. Era única, como só uma criatura simples e sem exageros pode ser.

Aliás, não sem exageros.

Certos exageros dão graça à vida.

Era verde como qualquer vegetal, Suas pétalas, de um vermelho que às vezes parecia um tanto tímido, de uma finura com ares de frágil (mas quando veio a tempestade, o vermelho ainda manteve-se vivo e uma pétala sequer caiu).

Se tinha exageros em seu ser, era na graça de seu florir. De se abrir ao sol de todo dia e reluzir junto a todo o cinza daquele mundo.

Não deixava ela também de ser recoberta pela fuligem sem cor daquele ar monótono e pedregoso da metrópole.

Não era como a beleza selvagem das plantas e feras que se costuma narrar nos romances de cavaleiros e feiticeiros. Pelo contrário, diferente desses primores da natureza, que com seu luzir e suas cores desafiam tudo aquilo que é urbano e esfumaçado, ela própria era parte daquilo tudo. Uma flor urbana, cujo brilho não poderia ser longe dos viadutos e da pressa dos minutos.

Não era falsa como flor de plástico ou idealizada em perfeições inexistentes como flor de vidro. Ela tinha seiva e tinha sombra. Tinha dor e tinha erros. Não deixara de viver um momento sequer as agruras que o mundo reserva a todo ser vivente.

Para o homem que passava apressado não era das flores a mais bela, a mais exótica ou mesmo a mais perfumada. E mesmo muitos dos que pararam para olha-la, é certo que grande parte não lhe deu grande importância. Alguns poucos acreditaram poder tê-la em seus jardins, mas ela não era do tipo que poderia colher fácil.

Tinha espinhos sim. Ah, como tinha espinhos e como se valia deles, vezes e vezes para evitar o toque indesejado daqueles amantes sedentos que se passavam e se faziam de floristas de bom coração. É claro que por vezes se entregou. Se entregou aos mais diversos caminhos, mesmo aqueles questionáveis ou mesmo julgáveis.

Tinha um asco maior que tudo, inclusive, ao julgamento alheio. À hipocrisia dos seres que lhe relegavam, por ser flor, o papel único de ser bela, imóvel e calada. Quando lhe impunham a conformidade, ou mesmo quando outra flor era vitima de tal inescrúpulo, era que seu vermelho se inflamava e os espinhos mais do que nunca queriam fazer sangrar o que viesse.

Ainda assim, não deixava de ser centrada. Erguia-se reta em seu caule, seu eixo, e conseguia manter-se bem a bem no formato que queria desempenhar.

É claro que haveria sempre aquilo que a derrubasse. Mas levantar após a queda não é privilégio de flores e muito menos algo de que foram privadas.

E ainda assim, em sua vida cinza, em seu corpo verde, em sua alma vermelha, havia espaço para sonhar. Sonhar com pureza e liberdade, qual voo de pássaro, com um pouco de terra macia onde pusesse recostar, se sentir segura e amparada, sem que o mundo a acusasse de perder sua independência, sem que ela própria se julgasse traidora de seu próprio caminho.

No fundo, ela só queria viver como acreditava que uma flor deveria viver, sem que ninguém dissesse (ou mesmo pensasse) algo a respeito.

Queria, como qualquer cria deste mundo, ser feliz.

Mas sempre existirão pessoas que pisam em flores.

E haverá dor, seja na mata, seja na rua.

Para a flor que chama o asfalto de lar, cada dia é uma vitória.

E a vida nem sempre é plena.

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