Conto – Da teoria entendida

Cultura - Nosso nome do meio_banner

DA TEORIA ENTENDIDA

(R.C.)

Primeira regra: nunca se apaixone por uma artista. Segunda regra: nunca se apaixone por uma artista. Terceira regra: não procure se apaixonar por uma artista. Aqueles chamados escritores, ou aqueles quase escritores, até mesmo um que tenta ser médico e escritor, meio artista, deve sempre obedecer a essas regras. Mas é claro que todos irão contra essas, contra essas dicas. É necessário aprender sob a própria pele, por a própria mente e o coração em uma aventura dessas para entender.con

Poderia dizer: tudo começou no dia no qual a dei um caderninho preto para desenho e… Mas não começara assim. Após o caderno brigamos, opiniões diferentes. Escutamos historias um do outro, trocamos xingamentos publica e escandalosamente. Alguns meses depois dançávamos como idiotas debaixo da maior chuva do ano. Nem mesmo faço idéia de como chegamos a esse ponto. Eros maldito.

Os livros de biologia e fisionomia acompanham boa parte do espaço da mesa. Às vezes distraem, mudam o foco. Certamente não funcionam todo o tempo. Sua presença continua forte. Sua ausência mais ainda. Horas, dias, palavras, linhas e contornos se perdem em tudo que já me disse. Gostaria de não ter estragado tudo, de ter…

O café esfria ao mogno, o chocolate e o pão ficam ao lado das canetas. O branco silêncio dos papeis assustam. Os primeiros óculos repousam em cima de algum livro. As madrugadas não são as mesmas. Deve fazer algum bom tempo desde que adormeci em minha própria cama, desde que vi um nascer do sol, um crepúsculo; há ainda tanto para ver, escrever, sentir, estudar.

Dançamos na chuva depois de um filme Cult em preto e branco tedioso. Estava com aquele all-star preto de quando nos conhecemos e um vestido com flores, como sempre, trajava algum jeans e alguma camiseta tecnicamente limpa. Lembro particularmente bem desse dia. Há pouco havíamos nos tornado amigos de verdade, sem brigas, sem intrigas. Seus desenhos decoravam algumas paredes, meus poemas enfeitavam sua estante, nossas palavras trocadas preenchiam toda a noite. Sempre dormi pouco, sempre odiei não dormir normalmente, mas com você…

Pego os seus desenhos escondidos nas gavetas. Algumas dedicações. Alguns poemas, seus primeiros. Esqueço de dormir de novo.

Nosso primeiro beijo fora naquele dia, depois de parecermos dois bêbados na chuva. Consegui lembrar-me de dormir naquela manhã. As horas de estudo não passaram de momentos rapidamente intermináveis antes de vê-la com aquela fita rosada. Por fim, não faço idéia de onde estou.

Encontro um papel em branco que não perturba. Começo um desenho, círculos e pétalas um pouco tortas. Algumas fracas palavras, alguns bobos sentimentos. Alguma luz. Alguma poesia. Relembro. Não respeitei as regras as quais criei. Agora as entendo.

Nunca se apaixone por uma artista. Será intenso o sentimento, a emoção, a vontade de sempre estar com e por ela. Suas palavras serão mudadas e influenciadas. Poderá depois, caso tudo dê errado – e provavelmente dará -, tentar mascarar tudo com outras coisas, com alguns livros, estudar ajudará bastante. Mas ela nunca sairá de ti. Estará nos seus gestos, nas suas palavras, naquela visão de uma flor. Nunca se apaixone por uma artista, provavelmente nunca se recuperará disso. Ela o acompanhará de perto estando longe, indubitavelmente feliz com outro, com outras coisas. Não faça isso.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s