Conto – Duas Quadras

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DUAS QUADRAS

(por R.C.)

‘’Você sonha?’’ Ela pergunta naquele tom obliqua e dissimulada que adoro. ‘’Claro que sonho. ’’ Acabo respondendo. ‘’Tá, mas sobre o que?’’. ‘’O mesmo que todo mundo sempre acaba sonhando, pra onde estou indo. ’’ E ela acaba rindo da minha cara enquanto encara outra estrela no céu não estrelado da cidade, ‘’Você vai a algum lugar?’’…

Aonde ir é sempre uma boa pergunta. Provavelmente muitos têm a resposta na ponta da língua; a faculdade de direito, letras, arquitetura lá naquela cidade nos confins da civilização ou aquele curso de medicina, veterinária, jornalismo, química no centro caótico urbano. Vou perseguir meu sonho, me tornar aquele ótimo profissional e fazer muito dinheiro! Esse é, particularmente, o maior desejo de quase todos que acabo conversando no curso.

Mas qual o ponto de tudo? Nenhum filósofo consegue responder.

Tudo que fazemos é sempre ir a algum lugar, quase nunca paramos. Acabo entendendo muito bem o que é ficar parado. Parado no tempo, na situação, no momento daquele memento; não confundo com inércia, não sou a merda de um físico. Estar parado é ser constantemente constante, sem mudanças significativas – não importando quantas novas peles acabe criando, ou quantas constelações acabe organizando, é só continuar.

Continuar sem um fim, buscando sempre algo interessante a fazer. Não vou continuar como Rimbaud foi tão menos ébrio quanto Verlaine, mas… O que acabo… Sempre acabar, quase nunca queremos começar algo, quase nunca começamos.

…’’Talvez acabe… ’’ acabo dizendo àqueles olhos claros já pesados de tanto me agüentar numa madrugada. Estamos deitados numa grama sem seu orvalho, já não somos a mesma coisa.

Acabei de pintar as ultimas bolinhas pretas naquele dia, pedi a conta de quantas foram. Acho que todos acabam perdendo a conta. Uma bola, um passo adiante ao sonho. Já se foram os tempos de um deles por vez, aquelas épocas cinzas com alienantes causas sem fundo. Agora, aux armes étudients, peguem suas canetas, seus lápis, suas mentes; um novo manifesto lá, o maio de 68 em pleno inverno inverso. Já deixamos de sonhar como aqueles tontos normais.

Muitos desistiram da rosa do povo, da vontade, da mudança. Não acreditam nas palavras, perderam suas idéias. Perderam a vontade de deitar na grama e encontrar nas estrelas aquelas sensações estranhas, de buscar o que querem…

Sobre o que sonham, sobre sonhar… Como se é incapaz de fazer tal coisa? Essa questão provavelmente intriga até os asgardianos mais pacíficos.

As estrelas sorriem da mesma forma que esses olhos dissimulados… ’’ acabe indo aonde devo ir sabe? Seja lá num hospital, numa sala de cirurgia, ou então num cubículo escrevendo histórias pra crianças… Vai saber, vou só… ’’ falando sozinho. Seus olhos já caíram em cima de mim, como sempre caem, como… Inspira, expira…

‘’Acho que perdemos o nascer do sol’’.

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