Conto – Inércia

Cultura - Nosso nome do meio_banner

Inércia

(Mariana Kurowski)

Pense em um lago, e atrás dele, um céu. Pense em seus olhos, por baixo d’água, mirando o céu. Pense no peso do ar, no peso da água, que espremem a mente, confusa e agitada. Pense na força que ergue, nos pés que se movem, nos braços que impulsionam, na vontade de subir, e emergir. Pense no conflito, na luta, no nado esforçado e na chegada à superfície. Na superfície, o engano: não está mais perto, está mais longe. É lá que está a inércia. É lá que a mente cai na armadilha, que todos os seus fluxos de problemáticas se misturam com a superfície, e nela, tornam-se rasos, desconexos, fugidios, conflitantes e vazios. Não há mais sujeito; só há a contemplação do cenário caótico que fez de si. Não há mais profundidade; só há a planificação e a diluição das potências perambulantes do caos. Não há sequer o movimento de deixar-se afetar por um fluxo que lhe possibilite aprofundar (-se), pois isso cansa, ou que lhe possibilite emergir, pois isso também cansa. Resta apenas um “e se….”

Vive-se (ou sobrevive-se) do ato de contemplar as infinitas possibilidades de se realizarem mais atos. Vive-se da observação das imagens distorcidas pela água do lago, dos astros disformes e da natureza borrada, como que projetados em sombras na parede dessa caverna cristalina. Uma má esperança, suficiente apenas para que não se finda, por completo, a própria vida. Tudo parece estável, imutável, quando, na verdade, a chama está se apagando, a força, enfraquecendo, e o todo, morrendo. O processo é lento, por isso quase imperceptível. Há sim um movimento, mas um movimento em direção a sua autodestruição, como se a vida desejasse a não-vida, sem, no entanto, mergulhar profundamente em tal desejo, pois ele é também mais um fluxo que não merece qualquer forma de esforço ou dedicação.

Pode-se pensar que há conforto nessa superfície; na verdade, há angústia, talvez o único componente profundo desse cenário. Há angústia porque parece ser necessário apenas um movimento, apenas uma permissão, apenas uma escolha, apenas mais um pouco de força e de coragem…, porém, nada disso é possível nas sombras, porque as sombras são meras distorções da vitalidade. E a angústia se aprofunda e se intensifica, embrulha e sufoca, naquele movimento lento em que se definha.

Pense em um lago, e atrás dele, um céu. Pense em seus olhos, por baixo d’água, mirando o céu. Pense no peso do ar, no peso da água, que espremem a mente, confusa e agitada. Pense na força que ergue, nos pés que se movem, nos braços que impulsionam, na vontade de subir, e emergir. Pense no conflito, na luta, no nado esforçado e na chegada à superfície…

s

Imagem: “The Phenomenon of floating” – Rob Gonsalves

 

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s