CONTO – “A pergunta”

espaco-culturaA pergunta

(Anoninus Anônimo)

O analista e o paciente estavam sentados no consultório. Idos quarenta minutos de sessão, o paciente começou com a conversa:

– Tem uma pergunta que eu quero que você me faça.
– Oi?
– Isso mesmo. Tem uma pergunta. Eu já pensei muito nela, já sei a resposta dela, mas eu quero que você me pergunte.
– Qual é a pergunta?
– Eu não vou te falar. Eu quero que você me pergunte da sua cabeça, não da minha.
– Por quê?
– Porque, se não, não tem sentido.

A queixa era válida, então o analista continuou a conversa. Seu dever, agora, era descobrir essa tal pergunta. Questão de tempo, ele sabia. Cedo ou tarde, ele acertaria a pergunta ou o paciente, cansado de esperar, falaria logo o que ele precisava ouvir. No primeiro caso, ele faria o que o paciente pediu. No segundo, sabe-se lá o que aconteceria – pode ser alguma coisa, pode não ser nada. Quem sabe?

Aquele já tinha sido um paciente difícil. A primeira consulta foi havia sete anos, quando o consultório tinha menos móveis e estava num endereço menos acessível. De lá para cá, o paciente tinha estabilizado – não chegava mais ao consultório em prantos, descabelado, dispneico, taquicárdico. Agora chegava ao consultório sóbrio, conseguia manter os noventa minutos da sessão sem choros, sem histeria. Agora ele não falava da mãe que morreu, da namorada que deixou, da faculdade que ele trancou. Falava do dia-a-dia, do trabalho, da raiva de uns colegas, da inveja de outros.

Depois de muitos meses revisando o cotidiano dessa pessoa, o analista já se acostumara com a rotina. Tudo mudou, porém, com aquela pergunta. Que será que tinha naquela pergunta que o paciente queria que ele fizesse?

Passaram mais quarenta minutos de sessão e o paciente se levantou para ir embora. O analista também levantou para abrir a porta.

– Então eu não fiz a pergunta certa ainda?
– Não.
– Você se importa se eu tentar de novo na próxima consulta?
– Se você quiser, eu te falo a pergunta agora.
– Pode falar.
– Você nunca me perguntou o que me impede de acabar com a minha vida.
– O que te impede de acabar com a sua vida?
– Culpa.
– Culpa?
– Sim.
– Por quê?
– Porque eu não tenho motivação no que pode ser, no futuro. Se eu acabar com a minha vida, não vai ter mais futuro para eu ser qualquer coisa. Mas se eu morrer, quem depende de mim vai ficar sem ninguém, quem se importa comigo vai ter gastado seu tempo à toa. Eu não consigo viver com essa culpa.
– Mas você não vai estar morto? Você não vai sentir culpa.
– Eu sei disso. Mas isso não me convence. Talvez seja minha cabeça tentando me salvar de fazer besteira.
Então o paciente saiu, o analista voltou para o consultório e dez minutos depois o próximo paciente chegou.

Na manhã do outro dia, o jornal da cidade anunciava:

ANALISTA ACHADO MORTO, NENHUM PARENTE LOCALIZADO.
Leilão Das Posses Dia 12 Deste Mês.

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