[CONTO] – Série de Contos – Prólogo

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Série de Contos
Prólogo

(por Anoninus Anônimo)

Durante a faculdade, eu ajudava pessoas a morrer.
Elas vinham até mim, falavam o que as levava ao suicídio e eu então fornecia o método mais adequado para cada uma. Nunca, no entanto, eu matei alguém. Eu apenas fazia as vezes de suas consciências, contava-lhes qual a morte mais adequada aos seus sofrimentos. Era dever do suicida dar cabo à própria vida.

Nem sempre isso era tarefa simples. Já levei semanas pensando qual a melhor maneira de dar fim a alguns sujeitos. Nessas ocasiões, alguns deles se mataram por conta própria, de modos que, caso pudessem observar-se depois de mortos, não os deixariam satisfeitos. Outros simplesmente desistiam de pôr fim às próprias vidas e seguiam vivendo-as.
Creio que era desses últimos de onde a minha fama vinha. Os mortos, certamente, não podiam passar adiante a informação da existência deste prestador de um serviço tão crítico. Ainda assim, num ritmo irregular porém ininterrupto, chegavam pedidos de ajuda na caixa de entrada do meu e-mail. Aproximadamente, era um por mês.
Terminada a faculdade, terminaram também os pedidos de ajuda. Talvez fosse a minha presença no campus, dia após dia, aparentemente alheia ao serviço que fornecia em sigilo que persuadisse os suicidas a falar comigo. Afinal, nunca ajudei alguém que não conhecesse antes.
Aparentemente, sempre meu segredo sempre era testado. E, provavelmente, eu sempre passava no teste: durante a faculdade, de todos os suicídios, eu sempre tinha ciência prévia.
Não tive alívio nem remorso de parar de ajudar pessoas a morrer. Para dizer a verdade, eu já tentava não pensar muito no assunto durante a faculdade e decidi manter esse hábito depois dela. Durante muitos anos, essa minha estratégia foi um sucesso formidável. Tive alguns lapsos no início, mas permaneci sem qualquer recordação desse passado até bem pouco tempo atrás. Inclusive, é a retomada dessas memórias o motivo de eu estar escrevendo isto.
Há alguns dias, recebi um e-mail de uma estudante da mesma universidade que eu frequentei. Ela pedia minha ajuda para morrer.
Não sei o que me deu. Talvez, depois de todos esse anos, todas essas memórias suprimidas voltando à tona muito depressa e sem preparação alguma tenham me afetado de alguma forma. Pela primeira vez, eu relutei em responder alguém que me pedia ajuda.
Essa menina era a primeira pessoa que pedia minha ajuda sem ter falado comigo. Certamente, a primeira que também não me conhecia, sequer de relance enquanto eu andasse alheio pelo campus. Afinal, eu não frequentava o campus havia muito tempo. Como essa menina soube que eu oferecia esses tipo de serviço, tantos anos atrás? Alguém poderia ter falado para ela. Mas quem?
E por quê só quando eu estava tão longe da faculdade? Relutei muito em responder. Eu teria de voltar para a faculdade, para o campus, encontrar a menina e dar a resposta que ela merecia cara a cara. Esse não era o tipo de resposta que se dá em um e-mail de três linhas.
Afinal, ela também não havia contado no e-mail o que a levava ao suicídio. Eu teria de perguntá-la disso. E isso também não é pergunta que se faça num e-mail. Mas já imaginava que não seria pouca coisa. Seja o que for, para ela confiar sua morte a um desconhecido, não deve ser coisa simples.
Seja lá o que for, foi suficiente para me fazer comprar uma passagem de volta para cidade onde eu fiz a faculdade
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