[CONTO] – Série de Contos – I

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Série de Contos
 I

(por Anoninus Anônimo)

“Nunca gostei de fazer malas. Há algo em planejar-me com antecedência que não me agrada; o quê, exatamente, eu não sei. É apenas um sentimento estranho, sem motivo.

Foi com esse desconforto sem razão de ser que eu arrumei as malas para voltar à cidade onde fiz a faculdade aquela noite. Eu chamaria um táxi dali algumas horas e estaria na ferroviária bem cedo para tomar o primeiro comboio que houvesse. Nesse meio tempo, tentei dormir. Sem sucesso.

Não conseguia tirar o e-mail da cabeça. Repassava frase a frase em pensamento alerta, daqueles não dá sinal de desacelerar e permitir que eu dormisse. Depois de quarenta minutos, desisti do sono e sentei na cama. Se eu não ia dormir, melhor que usasse aquele tempo para alguma coisa além de me revirar nos cobertores.

“Tenho que pensar em como manejar a menina”, não pensei. Apenas senti, ou tive a impressão de sentir.

Antes, eu jamais me preocuparia com isso. Apenas teria minha reação mais espontânea, sem me ocupar com que efeito isso teria na pessoa que me pedia ajuda. Prepotência de adolescente.

Hoje, não sei se consigo ter uma conversa espontânea com alguém. Todas as interações têm de ser cuidadosamente pensadas para terem exatamente o efeito esperado. No mundo dos adultos, mal-entendidos não são aceitáveis.

Esse mal-hábito estava afetando inclusive a maneira como eu lidava com o serviço que ofereci tão bem e por tanto tempo durante a faculdade. Eu havia de suprimi-lo. Falhei.

Ou o hábito era muito forte, ou eu realmente queria lidar com esta menina com mais cautela. Mas por quê? O motivo não estava claro, nem dava sinal de clarear.

Tudo acima ocorreu no intervalo de sentar-me na cama e sair dela, andar três passos e sentar-me de frente ao computador. Tivera uma ideia. Abri meu antigo servidor de e-mail e tentei incansavelmente lembrar a senha.

Depois de muito tempo vasculhando, cheguei aos e-mails daqueles que haviam pedido minha ajuda para morrer. Não tinha tempo de lê-los todos no ato, por isso fiz o download. Ia lê-los durante a viagem.

Depois de todos esses anos evitando aquelas memórias todas. Depois de ser puxado de supetão de volta para minha época de faculdade. Eu precisava rever aquilo tudo.

Precisava convencer-me de que não estava imaginando coisas.”

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