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[POEMA] – Água

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Água

(por Lionecel)

Eu olho para o alto
Ouço minha música preferida
Sinto arrepios

Eu olho para o alto

Ouço minha música preferida

Sinto vontade de chorar

Eu olho para o alto

Ouço minha música preferida

Sinto meus olhos ressecados

Eu olho para o alto

Ouço minha música preferida

Sinto meu sistema límbico inundar minhas glândulas lacrimais

Eu olho para o alto

Ouço minha música preferida

Me sinto inundar. Me sinto fluir. Sinto o fluir de meu líquido salgado escorrer pelo canto de meus olhos. Sinto minha lágrima escorrer

Eu olho para o alto

Ouço minha música preferida

Tento secar minha lágrima
Ela já está seca
Ela já está pulverizada
Meus olhos secos. Cheios de lágrima seca. Se enchem de sentimentos secos. Eu choro seco

Eu olho para o alto

Ouço minha música preferida

E saúdo o passado da minha lágrima molhada. Saúdo o dia em que eu sentia escorrer minhas lágrimas. Saúdo o dia em que as minhas lágrimas eram reais. Saúdo a vida

Eu olho para o alto

Sinto a sua brisa, Manoela
E sua brisa evapora. Minhas. Lágrimas

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[PROSA] – Anamnese Poética

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(por L.H.P.)

-Doutor, estou sentindo que perdi a poesia em minha vida.

Não é todo dia que somos confrontados com uma frase assim. Normalmente a queixa é mais próxima de “estou me sentindo triste” ou “estou com dor aqui ou ali”, mas perder a poesia era algo novo para mim. Não me lembro de ter estudado esse quadro na faculdade, nem debatido algum caso assim com meus professores. Mas aquela moça, cabelos longos e negros, olhos azul-curioso, lançava-me essa questão.

-O que a senhora quer dizer com “perder a poesia”?

-Isso mesmo, perdi a poesia. As pedras no meu caminho, agora são só pedras mesmo. Nada mais tem rima, nem sonoridade. Agora minha vida está uma crônica chata de jornal.

Aquilo começava a ficar cada vez mais confuso para mim. Sonoridade? Pedra? Seria um quadro depressivo? Resolvi arriscar:

-A senhora se sente triste, desanimada, sozinha?

-Se o senhor acha que eu estou com depressão, já vou logo avisando que não é isso. No começo até pensei que fosse, mas depois vi que não: o problema é a poesia.

-E quando começou esse quadro?

-A, acho que faz um mês, mais ou menos… quando eu entrei no meu novo emprego.

-A senhora trabalho com o que?

-Trabalho num escritório de advocacia, organizando arquivos, digitando coisas, sabe? Trabalho tradicional. No início, estava muito feliz, poxa, um trabalho novo, novas perspectivas. Ainda conseguia entender metáforas, ainda via alegria nos versos espalhados pelos muros dessa cidade. Mas a rotina, com o tempo, não sei, doutor, acho que agora sou um verso metrificado , sabe? Decassílabo…

Nunca me senti tão impotente na minha vida. Decassílabo? Seria isso um sinal clínico do qual nunca haviam me informado?

-O que aconteceu ao longo desse tempo?

-Eu acho que me tornei um poema parnasiano, doutor. Sabe, daqueles bem fechados, poema de dicionário? Sempre que ia escrever algum relatório para meu chefe, tentava colocar uma metáfora, uma prosopopeia, mas isso sempre era visto com maus olhos. Um dia, escrevi assim: “Nossa cliente relata que seu marido é um fingidor, finge tão completamente, que chega a fingir que é dor a dor que deveras sente”. Pessoa, doutor, todo mundo gosta de Pessoa. Quando meu chefe leu aquilo, achei que iria ser demitida. Fez-me prometer que nunca mais faria aquilo, sob risco de ser mandada para o olho da rua. O senhor mesmo, doutor: pode receitar um tango argentino para algum de seus pacientes?

-Creio que não

-Bandeira, doutor, Bandeira. Acho que então deve entender o que eu quero dizer, não?

Não estava entendo nada daquilo, mas tinha certeza que nenhum medicamento surtiria efeito ali. Talvez um psicólogo? Psiquiatra? Também achava que não era o caso. Continuei a conversa.

-Mais alguma coisa aconteceu nesse meio tempo?

-Meu namorado. Ele é um livro realista, doutor. Quer saber tudo nos detalhes mais íntimos, às vezes é irônico,  sempre realista. Disse que o meu amor por ele batia na aorta, ele me mandou ir ao médico. Drummond, doutor. Não sei mais o que fazer. Tenho medo de me tornar um manual de carro.

Agora tinha certeza que o caso não era para remédios nem tratamento médico. Resolvi arriscar um tratamento, pois não sabia mais o que fazer, mas queria ajudar a moça despoetizada. Resolvi entrar no jogo.

-A senhora ainda lê?

-No máximo o jornal do metrô, doutor. Não tenho tempo, a vida está muito corrida, sabe?

-Certo, vamos tentar o seguinte. Vou te receitar 3 doses diárias de poesia. Uma de manhã, uma no almoço e uma no jantar. Tente não ler nada pesado depois do jantar ao antes de dormir porque pode fazer mal. De manhã, opte por textos mais profundos. Não precisam ser textos longos, tente achar um tempo para isso. Faça isso por quinze dias e volte aqui para verificarmos os resultados.

A moça me olhava com cara de desconfiança, porém sorria. Agradeceu, pegou a receita e saiu. Encostei-me à cadeira e pensei em como me fez falta a disciplina de patologia literária na faculdade.

 

[POEMA] – Poema sem título

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Poema sem título

(Anônimo)

No começo, tiraram a educação
Eu não era estudante
E não me importei

Depois, fecharam os hospitais
Como eu não era doente,
Eu não me incomodei

Então, roubaram os empregos
Não o meu
Por isso não disse nada

Até que quiseram vender a velhice,
E pensei que talvez eu envelhecesse
E gritei

Agora quando tentam atacar direitos
Mesmo os que não são meus
Me junto à luta

Porque percebi
Que deixar levarem os outros
É pedir para ser o próximo

[PROSA] – Confessional Number One

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Confessional Number One

(Anoninus Anônimo)

Most nights when I lay down, I look at the ceiling and I ask to myself “What would I lose if my heart stopped beating tonight?”. Usually I can only come up with one answer: nothing.
Some nights I lay down and I set a task to myself: no to wake up alive the following morning. Useless effort. Death, unfortunately, can not be achieved by will. She is the one to come to us, not the opposite. It doesn’t matter how much we suffer. If our hearts are to keep beating, they will — and if our mind are to remain restless, they will.
Today I looked at the ceiling and I saw no reason to keep living. I saw no reason to die, either. I remain there, looking until I finally fell asleep.

[POEMA] – Inadequação Custa

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Inadequação Custa

(por Anoninus Anônimo)

Sou metamorfose porque já fui casulo.
Sou metamorfose porque jamais serei borboleta.
Sou potência e impotência
mutuamente interconversíveis.
Sou, acima de tudo, sofrimento
porque não Sou,
porque permanentemente estou sendo:
Metamorfose ambulante, sem sossego, sem identidade, sem pertencimento;
Cego congênito, heroico e trágico;
Telescópio armado, enviesado e parvo;
Animal-homem, que quis daquilo que não lhe dizia respeito.
Quis o que era dos deuses.
Foi devidamente castigado.

[POEMA] – Entre os Desencontros

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Entre os desencontros


(por Anônimo)

Ah, se os feixes de luz falassem!
Se reclamassem de suas interrupções
De seus passos tortos
Paralelos a esse sorriso
Escondendo desígnios tão terrenos quanto olímpios

Se esse coração ouvisse
A bagunça que faz
O peso que traz
Em noites de chuva

Se esses suspiros em uníssono
Transcendessem a matéria que os compõem
Se esses olhares curtos não fossem
Uma ficção confortável

Desilusão contínua:
É isso que sobra
Entre os desencontros
Desse lunático conto

[CRÔNICA] – Édipo

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Édipo

(por Anoninus Anônimo)

Há dias em que pensamos que somos invencíveis. Hoje não é um desses dias. Hoje me sinto pior que derrotado. Me sinto imobilizado, descrente se sequer vale a pena entrar no jogo da vida. É certeza que vou morrer na praia.

Esse sentimento assusta. Tanto que não me atrevo permanecer nele. Divago superficialmente nessa possibilidade, sem mergulhar. Temo o que posso encontrar no fundo dessa verdade tão incômoda. Anestesiei a mim mesmo e, imóvel de alma, o fluxo me leva.

E com o fluxo vem o que deveria ser a vida.

Vem fraca, pálida, passiva. E minha alma, meu instinto se irrita com isso. O animal que sou quer sangue, vermelho e vivo correndo nas minhas veias, quer sêmen, quer prazer, quer perder o fôlego e não recuperá-lo mais. Mas o homem que também sou rescinde tudo isso. O homem que também sou sabe que isso tudo é baixo, irreal, não-arte. Ele apaga a chama do meu querer-viver e aceita a entropia.

Mas o homem é software, e o animal é hardware. Ele ruge, e o homem sofre. Como sofre. Sofre um sofrimento solitário, árduo, duro e imaterial, uma batalha de si contra si. Um banho de sangue sem-dono, frio, coagulado, que quase parava nas minhas veias, na minha mente e me imobilizava.

Não aguento mais esse sofrimento.

Quero morrer mas tenho medo. Quero deixar de ser homem e virar alma, música, arte, sem dor e sem memória. Será que tem como?

[POEMA] – Constelações

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Constelações

 (por G.M.G.)

Estrelas na janela
Iluminam-me a vastidão enegrecida
Do Universo que me rodeia

Inclino-me sobre o parapeito
E elas como que me dizem
“Eis aqui um segredo:
Confia-te na tua existência
Que ela não te falharás”

Essa existência que se reside no inexistir
Ser é vital
Não-ser, necessidade

E entre sinfonias não tocadas
Livros não lidos
Beijos não dados
Persistimos
Entre duas notas, existimos

Estrelas na janela
Iluminam-me a vastidão enegrecida
De um Universo que já foi meu